Luciana Moherdaui
Disrupção, Dossiê, Insight

Vale a pena revidar fake news com fake news?

As fake news são a bola da vez na atual campanha eleitoral para presidente da república e governadores. Mas a disputa discursiva, retórica, no espaço das redes criando fatos ou mentiras, as fake news e uma estratégia saudável? Leia! Diante da escalada de ataques entre as campanhas de Jair Bolsonaro e Lula neste segundo turno e o debate que se formou em torno de apoiadores do PT aplicar os mesmos métodos da militância do seu adversário, o atual presidente Jair Bolsonaro – se vale a rebater fake news com mais fake news -, Malu Gaspar, afirmou, em sua coluna no jornal “O Globo”, que se trata de pergunta errada para o momento.    “Claro que não existe mentira do bem – quanto mais mentira baseada em homofobia. Por outro lado, responder a ataques com flores e amor tampouco vai resolver alguma coisa. Se há uma lição que qualquer pessoa que já acompanhou uma grande campanha eleitoral no Brasil aprendeu é que, por mais sujas e feias que sejam, campanhas negativas funcionam”. O problema não está na tática negativa que quase sempre funciona em campanhas em todo o mundo. Mas no dilema que envolve o discurso do PT em relação a fake news. Enquanto a conta oficial de Lula alerta para eleitores não acreditarem em falsidades espalhadas por bolsonaristas em grupos, o deputado mineiro André Janotes (Avante-MG), principal apoiador do ex-presidente, defende a divulgação de desinformação. A estratégia, denominada “janonismo cultural” pela cientista política Letícia Cesarino, “apropriou-se da estética da comunicação bolsonarista nas redes —caracterizada por montagens toscas, prints sem contexto, memes e difusão rápida —, além de assumir uma postura de ataque, saindo da posição reativa. Na roda, entram até conteúdos comprovadamente falsos ou distorcidos”, conforme definiu Cesarino a “Folha de S.Paulo”.  A contradição dividiu opiniões nas redes sociais e na imprensa, uma vez que a oposição a Bolsonaro sempre colocou as fake news como definidoras do resultado do pleito de 2018, e as combateu veementemente – o que não se pode comprovar matematicamente. O argumento agora é que revidar fake news com fake news é legítimo. Em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, Maurício Moura, presidente do IDEA BIG DATA, confirmou o que alguns pesquisadores têm afirmado, desde a vitória do atual mandatário: “[…] do ponto de vista acadêmico e estatístico, é praticamente impossível isolar o efeito de fake news”. A sujeira levantada nesta reta final da campanha por bolsonaristas e encabeçada por Janones  – homofobia, ataques a nordestinos, canibalismo, presidiários e guerra religiosa, entre tantos outros -, trouxe um desalento a quem pensou que as medidas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aplacariam a distribuição desenfreada de conteúdos dessa natureza. Mas o que se constatou foi a impossibilidade de fechar esse “esgoto”, como definiu Marco Ruediger, diretor de Análise de Políticas Públicas da FGV, à “Folha”. Mesmo banidos pelo TSE, vídeos de baixo nível continuam a circular pela internet, pululando de uma rede a outra. O bolsonarismo, por ter institucionalizado as fake news, não demonstra abatimento com as decisões do Tribunal. Pelo contrário, tem uma rede de articulação cuja dimensão não se pode mensurar. Já o PT busca se descolar do janonismo: “[…] o Janones não é da coordenação de comunicação da campanha”, disse a O Estado de S. Paulo, Edinho Silva, um dos coordenadores de comunicação de Lula. Mas é sabido que o deputado dá expediente em reuniões do partido e orienta ações na internet. Em que pesem as diferentes condições dos adversários no campo digital, revidar fake news com fake news coloca em evidência a incongruência petista e a falta de um plano em um espaço em que Bolsonaro nada de braçadas. Mimetizá-lo não aumentou as intenções de votos de Lula, e o presidente avança. #fakenews, #notíciasfalsas, #campanhapolítica, #polarização, #vicios, #virtudes, #reputação, #marketingpolítico ** Os artigos expressam a visão, olhar e opinião de seus articulistas. Nem sempre expressam a opinião de nossos editores e do NomuseLocus. Mas, todos ao serem convidados para colaborar com nosso projeto é porque estão em sintonia e alinhados com nosso conceito das reputações virtuosas.