Tati Mazzei
Dossiê, Insight

“Inteligência Artificial Quando a perspicácia da máquina não é tão boa assim, de quem é a culpa?”

“E aí Alexa, qual a temperatura hoje?”, “Olá Bia, qual o meu saldo disponível em conta?”, “Olá Siri, bom dia. Ligue para o fulano de tal, por favor”. Você certamente já executou algum destes comandos ou então conhece alguém próximo que os realize com alguma frequência, não é? Os assistentes virtuais, ainda mais em tempos de pandemia, têm sido uma companhia cada vez mais frequente na vida de todos nós. O mais inacreditável, é que não precisamos estender as mãos, fazer gestos ou qualquer tipo de exercício mirabolante para que seja possível solicitar tarefas a estas máquinas. Basta apenas um simples comando de voz. A IA, conhecida por muitos como Inteligência Artificial, está se aprimorando com uma rapidez assustadora. Isso porque, os cientistas de dados, para programar computadores, utilizam-se de duas formas possíveis de programação: uma, onde são inseridos códigos e onde se solicita que seja feito algo, ou então, a utilizada com maior frequência atualmente, a chamada “machine learning”, onde o aprendizado da máquina se dá através não só dos dados primários nela inseridos, como também em todas as demais informações coletadas durante a interação humano-máquina, com o objetivo de justamente aprimorar tais relações. Durante tal interação, além da coleta dos dados, os sistemas de computação não só os lê, como também aprende, interpreta e classifica tudo aquilo iputado via software e processado por poderosas máquinas computacionais. Vale aqui a premissa: “Quanto mais compartilharem coisas no ambiente virtual, mais a máquinas e sistemas aprenderão”. E pensar que há bem pouco tempo, há algumas poucas décadas, essa interatividade só seria possível e aconteceria em desenhos como os Jetson’s, onde a robô Rose era praticamente uma humanóide ou então em filmes futuristas como o Comandante Data em Star Trek, o C-3PO de Star Wars ou então indo para algo mais extremo, no Exterminador do Futuro. Quando poderíamos sequer imaginar que a ficção de fato se tornaria realidade e em tão pouco tempo? Afinal, está no imaginário coletivo assistirmos aos robôs que pensam como seres humanos e que acabam por dominar o mundo, tomando seu lugar. Mas então, como as máquinas aprendem? Os computadores são imbuídos de pensamentos mágicos? Claro que não. A autora do livro “Artificial Unintelligence: How Computers Misunderstand the World”, Meredith Broussard, deixa bem claro que, antes de mais nada, é preciso compreender que a Inteligência Artificial, não é algo sobrenatural, mas sim, puramente matemático. A IA teve seu início na Faculdade de Dartmouth em 1956, justamente no Departamento de Matemática daquela instituição, onde sua eficiência pôde ser demonstrada  pela performance em jogos, mais especificamente o xadrez, quando o campeão mundial Kasparov, acabou sendo derrotado por Deep Blue, o supercomputador criado pela IBM. É preciso também compreender que o machine learning, ou seja, o aprendizado de máquina, pontua probabilidades do que iremos ou não fazer, com base nos dados inseridos nos sistemas, posteriormente interpretados e utilizados, processados e analisados, para nos oferecer produtos e serviços dos mais diversos, com base no nosso comportamento passado – principalmente em redes sociais, que são nada mais do que poderosos algoritmos desenvolvidos para entender e aprender, com base no que expressamos cognitivamente. Mas então, onde está o problema? Na realidade, é importante que saibamos que há diferentes tipos de inteligência, onde o conceito de normalidade quanto à tecnologia e a sociedade, se dá em um número muito reduzido e homogêneo de pessoas. Não é possível, portanto, separar o social do técnico. Eles caminham juntos. O que a IA faz é justamente utilizar os dados para ensinar a máquina a identificar padrões comportamentais. E aí é que mora o perigo. A IA é suscetível a erros e vieses. Se os dados usados forem dados distorcidos ou irreais, os resultados apresentados também o serão. A Inteligência Artificial é o reflexo da história. Se pararmos para pensar um pouco, quem nos dá o entendimento sobre o que hoje conhecemos de tecnologia, são algumas personalidades que estiveram ou estão por trás das chamadas Big Techs. Não precisamos ir muito longe, basta que observemos tudo o que já foi dito por Steve Jobs da Apple, Bill Gates da Microsoft, Mark Zuckerberg do Facebook, Elon Musk da Tesla e Jeff Bezos da Amazon. Resumindo, ensinamos as máquinas através dos exemplos que fornecemos para que elas aprendam. Para que fique mais claro o seu entendimento no assunto, recomendo que assista ao documentário “Coded Bias” atualmente disponível na Netflix, onde vários estudiosos e cientistas abordam justamente as iniquidades dos algoritmos que alimentam a IA artificial e quais são os resultados desastrosos por trás disso. Você já deve imaginar do que estou falando. Sim, desigualdade, injustiça, parcialidade, facciosismo, partidarismo e muita arbitrariedade, são só alguns dos possíveis problemas apontados por um uso incompleto, incorreto ou distorcido de dados. Elas, na verdade, são espelhos das próprias percepções e valores do ser humano. Cathy O’Neil, autora do livro “Weapons of Math Destruction”, aborda em seu livro, justamente o impacto da IA na vida das pessoas, justamente discorrendo sobre o fato de que se os algoritmos não forem bem trabalhados, se forem desenvolvidos com o padrão distorcido de quem o construiu ou arquitetou, poderão ser destrutivos e prejudiciais de alguma forma, no futuro. O que percebemos é que os algoritmos fazem cada vez mais parte de nossa vida cotidiana e que possuem cada vez mais influência em nossas decisões diárias, sendo na maioria das vezes tomados como uma verdade absoluta. A questão preocupante e que também é abordada com primor pela autora Shoshana Zuboff, no livro “A era do capitalismo de vigilância” é justamente o poder embutido aos algoritmos pelo próprio ser humano e como isso vem crescendo de forma atroz. Vale aqui algumas reflexões: Quem são os donos de tais códigos e que detêm toda essa gama de informação sobre outras pessoas? Isso porque trata-se de uma relação completamente assimétrica e desigual, visto que as pessoas são influenciadas e sofrem consequências sobre o uso destes tais padrões e pouco conhecem ou são informadas sobre isso. Porque não são disponibilizados e expostos de forma