Ana Lúcia: Olá, obrigado pela presença de todos vocês aqui no nosso canal, do Virtuosidades do NomuseLocus. Hoje, dando sequência a esse tema, que é extremamente importante para o mercado, para todos nós que é a confiança, vamos focar no mercado, como que é a confiança, como ela se manifesta no ambiente de mercado. E, para isso, convidei o Luiz Gustavo de Souza, que é CEO da Velhos Capital, uma empresa internacional.
Luiz, muito obrigado mais uma vez, vamos lá começar a nossa excursão aqui por esse tema. Quando falamos em confiança, a gente está falando em algo que envolve a crença do outro em relação àquilo que está prometendo ou algo, uma relação que se estabelece ao longo do tempo e essa relação se torna perene e a partir de uma construção sustentada nessa relação, que é a confiança. Então, nesse sentido, no ambiente econômico, temos o conceito da confiança como fruto de um valor que tem uma utilidade, uma importância muito grande, porque se baseia numa troca de expectativa, baseada numa promessa de futuro, de ganho, ou de troca de geração de valor.
Nessa perspectiva, na sua opinião, a confiança como um ativo intangível é um indicador de geração de valor no cenário atual econômico, em termos de mundo e no Brasil? Ainda, como que fica esse ativo nessa relação de conflito, de insegurança das expectativas? Nesse mercado, principalmente, que você atua?
Luiz Gustavo: É uma excelente pergunta, uma pergunta intensa e que requer uma reflexão um pouco generalista, antes de irmos ao ponto mais importante. De fato, como você bem colocou, a confiança é um ativo. Assim como quando você compra um título, uma propriedade, você faz um investimento em algo, aquilo é um ativo, mas o poder, quando você coloca a confiança como o cenário para fazer com que a pessoa se movimenta, ela é o principal ativo e ela é intangível.
Por exemplo, o que faz qualquer pessoa tomar uma decisão, depois de uma boa análise, é ela ter confiança nela, no desejo e na informação que ela tem. Nos dias de hoje, quando você fala de geração de valor, sobretudo em um ambiente globalizado, com uma volatilidade muito mais acelerada do que há anos atrás, devido aos meios de informação, de tecnologia, as pessoas hoje conseguem ter informações e tomar decisões em segundos, o que antes ela precisava do jornal do próximo dia. Ou seja, os mercados e as moedas se sustentam sempre em percepções de estabilidade futura.
Então, vamos lá. Quando uma pessoa vai fazer qualquer tipo de movimento, de aporte, de investimento, o conceito de fé racional gira o maior fundamento dela. O que eu chamo de fé racional? A pessoa tem uma percepção daquela informação, ela se torna confiante para poder se mover ou se proteger, e essa confiança vai fazer com que essa liquidez de mercado se retraia ou cresça.
Quer ver um exemplo? Se sai uma notícia, se sai uma perspectiva de crescimento no Brasil, você pode reparar que no outro dia a Bolsa de Valores brasileira enxurrada de aporte a capital estrangeiro. Da mesma forma, se existe uma especulação em notícias de problemas graves institucionais, seja eles políticos, geopolíticos, esse mesmo dinheiro sai na mesma velocidade que entrou. Então, a confiança é um ativo intangível sim, mas principalmente ela é o principal indicador que vai gerar retração ou aumento de risco em qualquer coisa.
O capital, o dinheiro, ele sempre vai buscar refúgio, isso é fato. O dinheiro, ele sempre vai buscar proteção. Eu, antes de entrar nessa mira aqui com você, eu brincava com os meus sócios, olha, eu nunca vi ninguém que comprou ouro se decepcionar, não é? Ou seja, então, o capital, ele sempre vai buscar ou proteção ou ele vai buscar um lugar sustentável para crescimento.
Portanto, eu estou 100% de acordo com a tua pergunta, a confiança, ela é sim um lastro invisível do sistema econômico e com esse impacto direto sobre custo e capital, investimento e produtividade, eu acho que quem consegue fazer a gestão da confiança sempre vai ter ao seu favor um ativo que é intangível.
Ana Lúcia: Tá, então vamos para o segundo questionamento, né? E aí, nesse aspecto, quando a gente aborda confiança, estamos falando no nível de expectativa que chega, talvez, a um patamar da ordem de 100%. Então, nos últimos tempos, os institutos de pesquisa que se dedicam a esse tema, e a Fundação Getúlio Vargas é uma delas, tem demonstrado que o índice de confiança no Brasil, ele se caiu em um nível, em relação ao passado, significativo.
Então, nesse cenário, na sua visão, você acha que, baseado na realidade no cenário brasileiro, tanto econômico, de instabilidade econômica, com esse embate político todo que tem ocasionado uma retração grande, você ainda acha que há confiança para investimento por parte das empresas e mesmo indivíduos? Ontem mesmo saiu um indicador que o índice de poupança foi reduzido, neste ano, de uma forma estupenda, né? Como que você vê a sua expectativa em relação ao próximo ano e ao futuro, nesse sentido? Para que essa expectativa, esse grau de confiança por parte de investidores e dos indivíduos mesmos, ele possa se estabelecer novamente?
Luiz Gustavo: O Brasil, ele atravessa por muito tempo, né? Quando você pega os índices econômicos mais antigos, né? Eu gosto muito da retórica que a pessoa que ela estuda o passado, ela consegue compreender um pouco o presente e talvez ter uma projeção de futuro, né? Eu acredito que o Brasil teve uma melhora parcial, né? Na questão de cenário econômico, o Brasil, ele teve um 2024 muito turbulento e um 2025 que está se ajustando, mas ainda o momento é muito frágil, tá? A confiança empresarial do empresariado brasileiro é diferente da confiança do consumidor. Nós temos ainda uma generalização de pobreza e um aumento da inflação e da instabilidade monetária no Brasil, crescente, como nunca visto antes, como você bem disse. Isso faz com que o consumidor, ele consuma cada vez mais no terceiro setor, na cadeia básica, mas o empresariado, passando agora, né? A gente tem que trazer dados, né? Ele vem enfrentando uma crise de confiança tremenda.
Você vê que o Brasil está quebrando não só esses recordes, como você colocou, né? De saque de poupança, de diminuição de aporte em bolsa, mas eu posso te dar outro índice também que é preocupante, que é o número de empresas que estão fechando, né? E não por falência, mas por desistência. Então, eu acho que na questão momentânea, toda uma grande mudança política e cultural, ela gera uma resistência orgânica e natural, né? Eu acho que a incerteza fiscal no Brasil, ela é muito alta. O Brasil, ele tem uma baixa previsibilidade regulatória, então as pessoas nunca sabem o que será da questão tributária, da regulação, as pessoas sempre estão inseguras, né? E os principais vetores que eu posso te dar, para que essa recuperação seja desafiadora no longo prazo, é o seguinte, ó, o Brasil tem uma ancoragem inflacionária absurda, né? Quando eu fico procurando outros países na história do mundo, né? Que teve por tanto tempo uma ancoragem inflacionária como o Brasil, que ela é sustentada por argumentos emocionais, não por dados reais, né? Porque se você olha o poder de agricultura, o poder de geração de matéria-prima do Brasil, nós não precisaríamos ter essa realidade de inflação que nós temos hoje, né? Você vê que a recomposição do mercado de trabalho formal no Brasil está lenta, cada vez mais aumenta a informalidade, né? E o fluxo de capital externo é cada vez mais seletivo.
Então você vê que os bancos, para poder manter o dinheiro dentro dos bancos, paga cada vez mais taxas altas, fazendo com que o investidor seja parasita, não é, especialista? Então, enquanto o banco está pagando uma taxa de 10, 12% de retorno ao ano, por que eu vou empreender, né? Os investidores pegam dinheiro emprestado, investidores internacionais, né? Eles pegam dinheiro a juros, como aqui nos Estados Unidos, a 3,5%, investe no Brasil para ganhar 15%. Então, esse fluxo de capital externo fica seletivo, ele não é um capital que entra para movimentar a economia, né? E a credibilidade institucional governamental baixíssima. Ou seja, apesar do cenário ter melhorado comparado ao ano passado, eu não tenho uma convicção estrutural e uma confiança, digamos assim, de longo prazo, que a gestão financeira, dada ao governo atual, sem querer entrar em viés político, não foi a pergunta, está fazendo um controle orçamentário eficiente, fazendo com que as pessoas sintam confiança para poder alavancar a capital, né? A boa notícia é que o Brasil já está, eu vou dizer que, acostumado, né? Essa mudança radical de regimes de gestão monetária no Brasil, ela é tão intensa, que eu acho que o público, o povo, o investidor, o empreendedor brasileiro, meio que já está acostumado, o que é lamentável, né? O meu desejo é que essa nova geração se institucionalize melhor, se informe, né? E comece a mover seus capitais, seus recursos, não baseado numa gestão ineficiente, mas sim numa convicção na sua capacidade de geração de riquezas, né? Então, a minha conclusão é, é frágil, mas é possível ser revertido.
Ana Lúcia: Ô Luiz, baseado nessa sua fala, me veio aqui na cabeça o seguinte, o Brasil, eu já estou muito tempo aí no mercado, mais de quatro décadas, eu já passei por inúmeros planos, essa instabilidade monetária sempre está presente. E no presente, o que a gente tem é uma migração de renda para a informalidade, como você bem pontuou, onde o indivíduo, ele não tem condições de gerenciar e evoluir, maturar essa confiança, para que ele possa, inclusive, fazer um planejamento de vida para o futuro. Será que essa cultura no Brasil é isso mesmo, confiança? Então, a gente tem que ficar sempre no presente, mas nunca construir um processo linear, que a gente chama aqui de reputação, que gera ciclos a longo prazo de desenvolvimento? Essa é a realidade histórica do Brasil e ela não sai disso?
Luiz Gustavo: É, economicamente, se você olhar os últimos 100 anos do Brasil, ainda não foi construído, por mais de duas ou três décadas, uma estabilidade de crescimento humanitário.
Como economista, eu falo isso com uma tristeza danada, apesar de eu hoje ser líder de uma empresa americana, eu sou brasileiro, eu amo a minha pátria, eu desejo o melhor para o meu país, e principalmente para os meus conterrâneos. Então, bom, quando você olha para um país que não tem um histórico de riqueza de longo prazo, apesar de ser rico, mas não foi criado uma identidade na população de riqueza, a informalidade é um subterfúgio. Então, esse é o principal vetor, a meu ver, né? A pessoa não tem uma confiança social porque não herdou um senso de patriotismo, não herdou uma história de vitória de longo prazo, de gerações passadas.
O que nós herdamos é sempre o ato da sobrevivência, né? E o segundo fator, que aí já entendo mais na questão de dados monetários, estatísticos, nós temos uma carga tributária, uma mudança de tributos muito volátil e muito intensa no Brasil. Então, apesar de ser óbvio, e o óbvio tem que ser dito, como é que você faz uma gestão eficiente de longo prazo, como você disse, como é que você faz um planejamento futuro, não sabendo se o que você está construindo vai ser tributado por 20, por 30, por 40, por 50% do que você tem daqui a cinco ou oito anos. Então, os espaços de mudança no Brasil são muito curtos.
Quer ver uma coisa? Para finalizar a resposta para a sua pergunta, que foi muito boa, quando você pega outros países como Grã-Bretanha, né? Alemanha, Brasil, aliás, Estados Unidos, comparado ao Brasil, o Brasil tem um índice de crises e uma intensidade, uma quantidade de crises muito superior a esses países que eu citei. Nos Estados Unidos, a média de uma crise, ela é de 12 a 15 anos. No Brasil, é a cada 18 a 19 meses.
Então, de certa forma, o empreendedor, o contribuinte, o assalariado, né? Que é o intraempreendedor, né? Todos somos empreendedores, lutamos por uma causa, né? Ele está constantemente se vendo numa posição de proteção, de sobrevivência, né? Não sabendo o como vai ser, ele acaba se jogando na informalidade para evitar essas intempéries e essas mudanças de taxa. Via de regra, matematicamente, se você tem uma tributação que hoje é 30 e por uma canetada ela passa a ser 48, isso impacta diretamente no lucro líquido e na margem de retorno, né? No que a gente chama de cap rate aqui, né? No net, no encano, né? Na receita líquida desse empreendedor ou desse autônomo, fazendo com que ele, por essa simples mudança de mercado, ele se vê obrigado a sair, né? Do mercado formal, o que é lamentável, né? Juntando também com uma com uma crença social que nós temos, né? De que não importa o quão esforçado seja o governo, né? Eu acho que está institucionalizado uma certa insatisfação com a gestão de qualquer pessoa que entra na máquina pública do nosso país e o meu voto é que, no longo prazo, as pessoas consigam mudar isso e o coletivo seja mais saudável, inteligente e unido, né? Para que fazer com que, independentemente das posições das cadeiras, ambos estejam juntos querendo fazer com que o todo melhore no quesito instituição, estrutura e nação, né?
Ana Lúcia: Aí eu vou complementar com um questionamento, num estudo que eu fiz há dez anos, culminou inclusive com a minha tese, o livro, um dos pontos da pesquisa apontava, dada pela sociedade, que a coerência era o fator primordial para gerar confiança. E aí, nessa sua fala, a gente tem uma série de indicadores atuais que demonstram que isso não está presente, né? Na própria atitude de gestores e a gente vê muita inconsistência nas decisões, nas falas, nos atos, isso do ponto de vista de confiança no ambiente de mercado é essencial ou não é importante?
Luiz Gustavo: Fundamental. Eu acho que, de novo, nós tivemos uma mudança geracional intensa, né? Toda vez que eu vou fazer uma análise estratégica de um mercado de capitais para longo prazo aqui no nosso fundo, a primeira coisa que eu analiso hoje não são dados nem índices econômicos. Isso é o que nós fazíamos há 15, 20 anos atrás, né? Como economistas de carteira antigo que somos, né, minha amiga? Hoje eu não faço isso, hoje eu faço análise social, tu acreditas? Porque eu já identifiquei que o que faz com que um dado econômico seja volátil ou não é o conjunto de opiniões da maioria, ou seja, para onde aquela sociedade está caminhando. Então, quando você vê um viés um pouco mais socialista, um viés um pouco mais de esquerda, um pouco mais focado no operário, no trabalhador, você vê que a Inglaterra, ela, na década dos anos 60, 70, ela viveu muito essa dualidade, né, essa dicotomia.
E você via ali que o princípio da queda da Grã-Bretanha começou ali, né, aonde o povo, ele começou a se manifestar contra a gestão do império, né, e deu no que deu, você vê uma Grã-Bretanha sucateada e um país hoje onde a família real é rica, mas o país, de certa forma, ele é pobre e as pessoas não têm mais confiança no próprio mercado. Onde eu quero chegar com isso? Quando ocorre uma divisão, quando ocorre uma incoerência e quando o povo não se comunica, os fundamentos primordiais da confiança, eles são fulminados, eles são fulminados, né, e no mercado de capitais e investimentos, a credibilidade é que gera entrada. Então, se a maioria das pessoas não acredita naquela sociedade, naquela economia, naquele país, naquele Estado, né, ou seja, não existe uma coerência, o capital vai embora.
Eu acho que credibilidade nasce sempre da entrega de resultados, tá? Como você falou, pô, o que que gera credibilidade e coerência nisso? Se não existe resultados consistentes, se não existe uma fala alinhada com aquilo que está sendo entregue, né, se aquilo não é mensurável, se não existe coerência por sua vez, independente da simpatia governamental ou da quantidade de pessoas que aderem àquilo ali ou não, a questão da estratégia da transparência entre o que é entregue e o que é dito, no longo do tempo, ele é culminado, ele gera numa depreciação inconsciente, né? Então, você vê que empresas, líderes, né, ou seja, pessoas que estão sempre discursando, executando, exercendo governança, que constroem um tipo de confiança duvidosa, né, que não sabe gerar valor futuro, né, ela faz com que as pessoas tenham uma percepção de risco, às vezes, até meio que fantasiosa, tá? Eu, às vezes, escuto pessoas me falando coisas do Brasil que eu não sei de que mundo que esse cara tá vivendo, ou seja, ele tá tão aficionado num ponto, tão aficionado numa posição política, que ele tá perdendo o senso de julgamento, né, o senso de análise real e natural da coisa, tá? Agora, o segundo fator que eu posso contribuir pra tua pergunta é o seguinte, nunca na história da humanidade as pessoas foram tão informadas e tão desinformadas como agora. Hoje, qualquer leigo ganhou voz e qualquer pessoa bem informada não está sendo escutada. Então, você vê que quem tem propriedade pra falar, às vezes, não acessa, e quem não tem propriedade nenhuma num determinado acesso, acessa porque tem uma linguagem popular.
Isso tá gerando uma mudança de comportamento que reflete na mudança de consumo tão grande, né, de modo que, por exemplo, deixa eu te dar um dado aqui, você vê que o Brasil tem perdido cada vez mais reserva de valor, as empresas estatais, as que ainda são estatais, voltaram a estar sucateadas, esses são dados, não sei o que eu tô falando aqui, elas voltaram a perder valor de capital, caixa negativo, né, que diferente do que estava há algum tempo atrás, de novo, aqui a retórica não é sobre quem tá certo ou tá errado, são só dados, e contra fatos é impossível argumentar contra, né, essas empresas elas perdem cada vez mais ação e pujança, seja nos mercados abertos de bolsa de valores, de capitais, e tudo, né, fazendo com que as pessoas olhem pra ela e não acreditem mais. Por um outro lado, o cara com o telefone móvel na mão, com acesso a uma plataforma de investimentos internacional, ele consegue acessar qualquer coisa e mandar o dinheiro dele pra uma instituição localizada aqui nos Estados Unidos, ou na Europa, ou em qualquer outro lugar que ele tenha uma simpatia. Quando, na história da humanidade, isso foi possível? Então, ao mesmo tempo que tem muita gente se posicionando e mudando e enxergando já o mundo como um país, porque isso é o que vai acontecer naturalmente, né, a facilidade de comunicação, o acesso, né, o mundo tá virando um bloco único, eu consigo ver isso claramente, eu consigo ter acesso hoje a movimentações financeiras no Middle East, né, no Minado Árabe, em tempo real, antigamente eu precisava receber um índice de uma semana pra poder analisar, né, isso faz com que as pessoas, elas anseiam e se movimentem meio que desinformadas e despreparadas e, ao mesmo tempo, faz com que as pessoas que estão localizadas, como você falou, no Brasil, numa intraeconomia, elas fiquem reféns de uma opinião popular, por não saber analisar a coisa como ela realmente está.
De novo, eu acho que credibilidade, a pessoa tem que ter nela mesmo, ela tem que acreditar nela, né, naquilo que ela está fazendo. Eu, cada vez mais, influencio toda e qualquer pessoa, não depender de nenhum tipo de subsídio estatal, porque isso é insustentável no longo prazo, eu acho que a coerência dos atos do indivíduo tem que estar alinhado com o tipo de vida que ele quer ter. E nunca na história da humanidade nós tivemos tanto acesso e facilidade pra poder nos mover pra riqueza e pra vitória como agora.
Então eu acho que está difícil pra quem quer ficar intralocalizado e está fácil como nunca pra quem quer estar globalizado.
Ana Lúcia: Interessante essa sua perspectiva. Pra gente encerrar e eu não ocupar tanto seu tempo, eu queria que você, como um homem de mercado, né, e estando também fora da nossa realidade, do nosso mundinho aqui, nos passasse quais os principais erros cometidos por uma empresa ou por um executivo que levem a perda desse laço de confiança e uma mensagem final sua com relação à confiança e quais seriam um conselho, se é que eu posso ter essa pretensão, que você poderia deixar para uma empresa brasileira que está num cenário de tanta instabilidade, incerteza e mesmo para um cidadão que tem lá sua poupancinha, não sabe, vende a sua casa, quer investir e não sabe bem pra onde ir, né, onde ele pode se assegurar e como essa empresa pode ter uma sustentação pra que ela não tenha tanta frustração com relação aos passos que ela vai dar.
Luiz Gustavo: Olha, eu acho, respondendo a primeira pergunta, os erros mais comuns que destroem a confiança de qualquer investidor ou candidato a investidor, na maioria das vezes, parte da própria pessoa, sabia? O ser humano, ele tem por natureza, ele querer acreditar em algo que ele deseja e não em fatos. Por exemplo, eu não sei se você sabe, se a sua audiência sabe, o país onde existe o maior número de atividades ilegais de investimento, como pirâmides financeiras, grupos econômicos não legalizados que investem em moedas ou atividades suspeitas, esse país se chama Brasil, né? A gente costuma brincar aqui no nosso fundo que é mais fácil você montar uma pirâmide financeira no Brasil pra roubar o dinheiro das pessoas e ter aderentes, ter pessoas que vão acreditar naquela conversa mentirosa, do que você montar um fundo de investimentos que vai trabalhar duro a longo prazo e entregar resultados reais. Porque as pessoas, no seu anseio de querer as coisas rápidas, elas cometem erros esdrúxulos e elas acreditam em fantasias.
Mas o conselho que eu poderia dar para as pessoas e para os líderes, para os gestores, é cuidado ao prometer, né? Eu acho que prometer menos e entregar mais é nobre, tá? Não há problema nenhum em ter crise. Eu sempre falo para as pessoas, é ótimo que os países tenham crise, porque na crise as pessoas criam, elas se reinventam e é nas crises que as pessoas crescem e amadurecem e as economias evoluem. O problema é a falta de transparência diante da crise, tá? Eu acho que um bom gestor, no momento de crise, ele tem que saber se comunicar com seus clientes, com seus funcionários, com seus intraclientes, seus clientes internos, né? Eu acho que a gestão de curto prazo que sacrifica uma reputação, ela não vale de nada, tá? A reputação, a meu ver, ela foi, é e sempre será o maior ativo de uma organização, a meu ver, tá? Eu acho que uma narrativa sólida sobre qual o propósito da pessoa tem que estar alinhado com qualquer discurso econômico e social que ela possa ter, né? Eu acho que confiança se constrói ao longo do tempo com o caráter do gestor e eu acho que isso é revelado de forma inevitável com o passar dos anos, tá? E se eu pudesse dar uma mensagem final, né? Como você me pediu aqui, eu diria para as pessoas o seguinte, olha, proteja o seu capital das oportunidades que se parecem milagrosas de curto prazo, né? Historicamente, o número de pessoas que eu vi perder tudo por querer investir tudo que tinha em algo que ia mudar a vida dela da noite para o dia é sempre muito maior do que os fatos, né? Do que de fato isso acontecer.
Quer ver, eu trago para a memória aqui, a minha esposa, ela é de uma cidade do Rio de Janeiro, né? Eu sou casado com uma carioca e alguns anos atrás nós estávamos de férias na casa do pai dela e estava acontecendo ali um alvoroço na cidade onde o pai dela tem a casa de praia, porque naquela cidade existia um tal de faraó do Bitcoin, né? E vieram me contar, Gustavo, as pessoas aqui estão vendendo as suas propriedades e aportando nessa empresa que está pagando X% ao mês. E para mim, que sou do mercado financeiro, quando eu ouvi aquilo, eu falei, eu não acredito que mais uma vez eu estou vendo e ouvindo isso. Historicamente, 100% de quem disse isso cometeu fraude.
Pessoas vendendo casa, carro, tudo que tinha para aportar instituições que prometiam pagar 8% ao mês. Isso é humanamente impossível de ser feito, né? E de bom, óbvio, quem veio falar comigo eu falei, olha, eu vou te dar de 12 a 24 meses para você perder tudo. Então, se eu fosse você, eu saia disso agora enquanto tem tempo.
Dito e feito, um ano depois você via que metade daquela cidade estava com tudo a venda e todo mundo perdeu o que tinha, o que acreditou nessa conversa fiada, tá? Então, proteja o seu patrimônio de promessas irreais, né? E para você que é gestor, isso eu falo para você, que eu falo para mim todas as manhãs, né? Comunique verdades, por pior que seja. O mercado, ele segue, quem sabe lidar bem com boas, com más verdades e atravessar por esses desertos com dignidade e com resiliência, né? Eu acho que entregar a previsibilidade num mundo tão imprevisível faz parte daqueles que colocam o seu caráter e o seu senso de propósito na frente dos seus interesses, né? Então, é duro ter que falar isso, mas seja honesto, eu acho que não tem como errar sendo dessa forma.
Ana Lúcia: Muito obrigada, Luiz. Você, na sua fala final, contemplou tudo que a gente tem colocado, né? Mas é difícil, porque a ansiedade pelo ganho e muitas vezes o que permeia hoje o cenário é exatamente isso, construção de narrativas que dão aquele sonho, projeto, aquele sonho, concretização e, na verdade, são muito tênues e muito vazios. Muito obrigada, foi muito importante, eu te convido também para outras oportunidades, a gente está aqui superaberto. Claro, foi um prazer, obrigado pelo convite, eu desejo êxito e o melhor para você, sua família e toda a sua audiência. Muito obrigada, um bom dia e um excelente final de semana para você.
Luiz Gustavo: Para você também.
Transcrito em TurboScribe.ai
