*Rayhanna Fernandes
Nos últimos anos, falar sobre Direitos Humanos no ambiente empresarial deixou de ser uma pauta restrita a condições de trabalho, relacionamento com comunidades ou responsabilidade social. Hoje, esse debate integra temas como inteligência artificial, cadeia de fornecimento, avaliação de riscos e impactos adversos, assim como adequação às exigências regulatórias e às expectativas de investidores, consumidores e da sociedade. O desafio já não é convencer as empresas de que essa agenda importa, mas transformar o compromisso em prática.
Essa foi uma das principais reflexões do IV Diálogo Empresarial da América Latina e Caribe sobre Direitos Humanos, realizado no Panamá, que reuniu representantes para discutir os desafios da implementação da devida diligência e as tendências regulatórias internacionais e seus impactos para a América Latina. A pauta teve como diretriz os Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos, principal referência internacional para orientar governos e empresas na prevenção e reparação de violações relacionadas às atividades empresariais.
O relatório Perspectivas de Negócios Responsáveis 2026, da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), mostra que 69% das maiores empresas de capital aberto do mundo já divulgaram compromissos relacionados à sustentabilidade e à responsabilidade social. No entanto, apenas um quarto identifica e monitora os impactos de suas atividades sobre as pessoas e cerca de 20% adotam medidas efetivas para prevenir ou mitigar esses riscos.
A distância entre intenção e prática também aparece nas cadeias de fornecedores. Metade das empresas afirma considerar critérios sociais e ambientais na escolha de parceiros comerciais, mas menos de 20% avaliam efetivamente os riscos relacionados aos Direitos Humanos ao longo dessas cadeias, de acordo com o relatório da OCDE.
Isso mostra que os Direitos Humanos precisam deixar de ser tratados apenas como uma pauta de sustentabilidade ou responsabilidade social. Eles estão presentes em decisões sobre gestão de pessoas, compras, fornecedores, inovação, tecnologia e relacionamento com comunidades. Questões como não discriminação, prevenção ao assédio, saúde física e mental, privacidade e proteção de dados fazem parte da gestão desses riscos.
Ao mesmo tempo, a expansão da Inteligência Artificial traz desafios. Sistemas utilizados para recrutamento podem reproduzir vieses discriminatórios, enquanto ferramentas de monitoramento de trabalhadores levantam questões sobre privacidade, autonomia e dignidade. E sem governança adequada, a tecnologia pode ampliar riscos já existentes nas organizações.
Nesse cenário, a regulação tem cumprido um papel importante. Cada vez mais países incorporam exigências relacionadas à transparência e à due diligence em Direitos Humanos, influenciando investimentos, contratos internacionais e cadeias globais de fornecimento.
A mensagem é clara: Direitos Humanos deixaram de ser um diferencial reputacional para se tornar parte da governança empresarial. No Brasil o desafio é tornar essa agenda aplicável também às pequenas e médias empresas, considerando suas limitações financeiras e operacionais. Mas acelerar essa transformação depende também de uma mudança de mentalidade, sobretudo da liderança.
A velocidade da inovação tecnológica, das mudanças regulatórias e das transformações sociais tornou insuficiente a lógica de responder aos problemas apenas depois que eles acontecem. O diferencial estará na capacidade de antecipar riscos, ouvir as pessoas afetadas e transformar compromissos públicos em decisões concretas.
Temos que deixar claro que empresas responsáveis não são aquelas que apenas afirmam respeitar os Direitos Humanos, mas as que conseguem demonstrar, na prática, como incorporam esse compromisso às suas decisões diárias.
*Rayhanna Fernandes é especialista em sustentabilidade corporativa, com foco em diversidade, direitos humanos e trabalho decente. Advogada formada pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestre e doutora em Direito do Trabalho. É autora do livro O Lugar do Feminino Negro no Mercado de Trabalho: Para Além do Salário e da Remuneração.

