Verdade e a Narrativa: Reputação, Moral e Responsabilidade na Era da Desinformação

Atualmente, a intersecção entre discursos, meios virtuais, política, imprensa e a proliferação da desinformação redefiniu as fronteiras da ética no convívio social público. O espaço público que tradicionalmente migrou para o ambiente digital, virtualizado, e que noções claras de privado, público, limites “liquefaram-se”, para usar um term,o já amadurecido, de estudiosos como Zygmunt Bauman, em Modernidade Líquida.

Nesse ambiente – mais recentemente na política- e em um cenário de polarização e conflito, conceitos tradicionais como moral, reputação e responsabilidade deixaram de ser apenas virtudes abstratas e passaram a operar como armas estratégicas e escudos em uma disputa implacável pelo monopólio da verdade.

Nesse cenário tomo a ousadia de resgatar uma filosofia que necessita ser ensinada e relembrada: àquela da ética da responsabilidade – imperativo preemente para que não cheguemos à situação da falência do diálogo, essencial para o equilíbrio das relações humanas em uma sociedade moderna e que se autodenomina superadora das experiências históricas de violência e de destruição de impérios e povos – e imprescindível para o debate democrático.

1. A Reputação como Ativo Criptografado

A reputação, historicamente construída por meio de ações consistentes ao longo do tempo, tornou-se o ativo mais importante da contemporaneidade, porém extremamente volátil na era da cognição digital. Em meio a conflitos políticos, a percepção pública de um indivíduo ou de uma instituição não depende mais apenas de seus atos concretos, mas sim da eficácia da narrativa que os envolve, que por estar transacionada no ambiente volátil pode ser reeditada, reinventada e disseminada aos trilhões de ambientes dos dados.

Esse processo que gera a desinformação atua e sobrevive graças a essa volatilidade que é extremamente vulnerável. Destruir a reputação do oponente tornou-se o método mais rápido, eficaz para vencer debates, garantir um segundo de poder – sim, porque é esse tempo mínimo que essa volatilidade disponibiliza. É muito mais eficaz e menos arriscado do que se colocar no locus da contraposição de ideias.

As tribos digitais, já expunha Mafezzoli – No Tempo das Tribos, o Declinio do Individualismo nas Sociedade de Massa e A transfiguração do Político:a Tribalização do Mundo- a imagem pública passou a ser moldada por “tribos digitais” que validam ou cancelam atores sociais com base em conveniências ideológicas, causas, sentimentos, emoções, (o maior gerador de ativos e valor), que gera e esvazia o valor real da integridade.

2. A Crise da Moral e a Metamorfose dos Discursos

A moralidade, que sempre foi o norteador e guia universal civilizatório para o comportamento justo e respeitos – duas dimensões da reputaçãovirtuosaintegradora, vai se metaforseando nesse ecossistema volátil e que vem se concretizando e se ampliando na ambiência dos discursos da política.

O fenômeno se insere no que os teóricos da Ciência Política vêm apresentando como a “pós-verdade” e que procura esvaziar a objetividade essência presente nos fatos – bases da ciência jornalística e do Direito – com ao argumento de que os “fatos objetivos” não fornecem “apelo populares” que apenas as emoções e as cenças que consolidam “seguidores, apoiadores, curtidores. Um discurso presente atualmente nas estratégias de comunicação de mercado e publicitarias. do que os apelos às emoções e às crenças pessoais.

Essa retórica tem há anos evoluído e chegou a um clima de alto risco social, de convivência e relação humana – o que tem me angustiado como estudiosa, educadora e há mais de quatro décadas no universo da comunicação. Afinal, quando líderes e influenciadores utilizam discursos inflamados, a verdade se esvai e só impera a mentira e o controle, terra na qual a moral passa a se tornar mero objeto de tempos “antigos” – ela se fragmenta, passa a ser relativa: o mesmo ato pode ser julgado como heroico ou criminoso dependendo de quem o pratica e está ou não alinhado com determinada tribo. Muito perigo esse contexto!

Uma moralidade seletiva corrói confiança, credibilidade de pessoas, empresas, profissionais, instituições, países, nações e marcas.

Confiança já se provou, inclusive no nosso modelo das reputacoesvirtuosasintegradoras, é o produto mais sensível e difícil de ser gerenciado e ser conquistado. Ela gera ciclos virtuosos, de desenvolvimento e evolução. Se passamos a optar pela volatilidade, estamos realmente em um período de enorme risco civilizatório no qual a mentira torna-se o elemento de legitimidade de reputação, valor e poder. Será que é isso que desejamos?

Uma questão precisa ainda ser colocada nesse artigo que faço questão de pontuar como jornalista formada em tempos nos quais a prática exigia imparcialidade, mínima opinião e sustentação em verdade e fatos. Nesse tempo opinião era apresentada por especialistas, o locus do jornalista era sustentado na moral da verdade. Qual o papel da imprensa nesse jogo?

3. O Dilema da Imprensa e a Ética da Responsabilidade de Max Weber

Nesse cenário conflituoso e distorcido, a imprensa enfrenta o maior desafio de sua história moderna. É responsabilidade do jornalista profissional ser o “guardião” da verdade baseada em fatos. É difícil em uma época de excesso de influencers e muitos especialistas e opinativos – mas temos que entender essa linha entre opinar, expressar e informar jornalisticamente para que possamos ser capazes de distinguir a verdade.

Ao analisar o comportamento da própria mídia, prefiro reforçar o termo imprensa porque mídia está na minha interpretação no meio, um ambiente publicitário, é importante retomar a Max Weber e a sua   distinção entre a ética da convicção e a da responsabilidade.

Enquanto a convicção como as tribos, voltando a Mafezzoli, defende dogmas e interesses partidários, a ética da responsabilidade considera que o ator social responda pelas consequências previsíveis de seus atos.

Ora, no caso do jornalista, e em consequência de toda a imprensa essa responsabilidade se traduz no dever de ir além da mera reprodução mecânica – técnica – de falas ou do “ouvir os dois lados”. A responsabilidade da imprensa deve orientar-se pelo dever de se ter uma postura ativa de checagem, contextualização e recusa em amplificar discursos de ódio, mentiras, distorcer fatos, ou priorizá-los em detrimento dos interesses de lados ou ideologias, empresas ou correntes,usando o argumento de “neutralidade” – não existe isso, – afinal, somos seres políticos. O que existe e é exigido do profissional e imprensa é sim a imparcialidade e a verdade dos fatos narrados.

4. O Resgate do Compromisso Coletivo sob a Ótica de Hans Jonas

Para superarmos a degradação do debate temos que retomar agora a Hans Jonas, expoente da ética da responsabilidade quando ele fala:“[…]aja de modo a que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana” — o que se molda perfeitamente ao ambiente jornalístico que lida cotidianamente com a informação.

A desinformação em massa ataca diretamente as fundações da convivência social ao corroer a confiança mútua.

A responsabilidade nessa área em tempos de dissolução dos valores e compromissos civilizatórios históricos, representa liberdade de expressão não dá a imprensa, influencers e a cada indivíduo, o direito de fabricar verdades, de realidades paralelas que destroem reputações, desumanizam oponentes e ameaçam a estabilidade das instituições.

O papel da imprensa e do jornalista são essenciais nesse momento e no cenário contemporâneo para além de informar, sustentar-se e ter em consciência a responsabilidade para com a geração, a educação do sentido de justiça, verdade e fatos que as gerações das últimas décadas não vivenciaram já que seu convívio social e humano migrou para esse ambiente volátil, cujo maior valor é a distorção da maior fonte de ignificado humano que é a confiança.

Conclusão

O embate entre a verdade e a desinformação do cenário tal de conflito político representa, como citado acima uma real e concreta crise de valor e sem um compromisso renovado para com ela e nisso a imprensa e todos os comunicadores exercem um papel preemente, teremos efetivamente o fim de toda uma história de esforços que nos permitiram chegar ao grau evolutivo dos dias atuais. Voltar à barbárie é desumano, destruidor e imoral. Precisamos assumir a responsabilidade e um compromisso e consciência para com as consequências dos discursos. Acredito que não desejamos que a reputação se consolide como tem sido em uma mera moeda de troca que pode ser comprada, que tende a ser cada vez mais desvalorizada e a moral, um mero conceito de conveniência. O futuro da convivência democrática depende da nossa capacidade coletiva de rejeitar o espetáculo das falsas narrativas e restaurar a dignidade dos fatos.


AAutor – Ana Lúcia de Alcântara Oshiro – Jornalista, Doutora em Ciências da Comunicação, Mestre em Tecnologia, Comunicação e Mercado, Especialista em Marketing, e Direito Constitucional e Certificada em Direitos Humanos e Negócios pelo International European Institute for Sustentability e coordenadora e criadora do NomuseLocus e TAcademia. analucia@nomuselocustacademia.com.br

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